Na segunda-feira, 21 de setembro, o país celebrou o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Como forma de reforçar a conscientização da sociedade, dar maior visibilidade às batalhas enfrentadas diariamente e buscar a efetivação plena das políticas públicas relacionadas à área, a Câmara de Lages realizou uma sessão especial alusiva ao tema na tarde desta quinta-feira (dia 24).
Diversas associações que trabalham em prol da classe estiveram presentes no Plenário Nereu Ramos. Proponente da sessão, o vereador Nixon (PL) ressaltou que sua equipe teve o cuidado para que o maior número possível de representantes estivesse presente e com lugar de fala à mesa de autoridades. Segundo ele, só quem pode falar com propriedade sobre as demandas e propor soluções práticas são as próprias pessoas com deficiência. “É como eles dizem: Nada sobre nós, sem nós”, afirmou.
Nixon tem como uma de suas bandeiras a causa autista, uma vez que seu filho possui o transtorno. Líder comunitário do bairro Penha, ele adotou também esta luta ao passar a compreender melhor tal condição. A partir disso, teve mais conhecimento dos outros tipos de deficiências e, hoje em dia, é uma importante voz nessa representação:
“Nós somos, todos, apenas uma família! Sejam deficientes físicos, visuais, auditivos, intelectuais, são pessoas que buscam a atenção, o atendimento, o respeito e o acesso para que cada vida seja realmente plena. Agradeço a cada pessoa, a cada associação aqui representada, pois a soma de esforços é que faz a diferença. Nosso gabinete está sempre de portas abertas para atender vocês naquilo que precisarem”, disse Nixon, que prometeu levar as demandas apresentadas para conhecimento das autoridades competentes, a fim de que possam destinar recursos ou executar ações que propiciem a real efetivação dos direitos das pessoas com deficiência.
Diferentes deficiências estiveram representadas no Legislativo
A presença das entidades e de profissionais que atuam na área evidenciou os avanços conquistados, mas também muito do que ainda pode ser feito em relação às questões estruturais, comunicacionais e atitudinais. As manifestações proferidas durante a tarde deixaram claro que não basta apenas incluir a pessoa com deficiência, sem garantir com que elas tenham liberdade, autonomia e senso de pertencimento a qualquer lugar onde desejam estar.
Estando na primeira gestão como presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência (Comped), Elen Guedes, que também dirige a Associação dos Deficientes Visuais do Planalto Serrano (Adevips), pediu o apoio da Câmara e colocou o Comped à disposição para a construção de um Estatuto Municipal da Pessoa com Deficiência, assim como para tornar a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) uma língua oficial do município de Lages.
Em sua fala, ela explicou que, além das barreiras físicas, algo que dificulta muito a vida das pessoas com deficiência são as limitações comunicacionais. De acordo com Elen, registros do uso de Libras remontam há mais de 170 anos, mas ainda assim, ela não é assimilada ou conhecida pela população. O mesmo pode ser dito do Braille, sistema de escrita tátil usado por pessoas cegas ou com baixa visão.
“Libras deveria ser a segunda língua nacional. Nas escolas, as crianças aprendem inglês ou espanhol, por que não Libras ou Braille? Temos muita dificuldade quando acessamos uma unidade básica de saúde ou uma instituição de ensino pela falta desta universalização. Acabamos dependendo do bem-querer alheio, mas deveríamos ter autonomia para nos sentirmos parte integrante desses espaços. Precisamos de uma Lages inclusiva, amiga da pessoa com deficiência – com equidade social, acima de qualquer nomenclatura”, clamou Elen.
“Nenhuma deficiência pode ficar de fora. Cada pessoa é diferente, tem suas necessidades, ambições e sonhos. Peço que a sociedade como um todo tenha mais consciência e respeito, e garanta mais acessibilidade e oportunidade às pessoas com deficiência. Nossa voz deve ser ouvida e respeitada não só hoje, mas todos os dias”, expressou a auto defensora e representante da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Mariana Schneider Cervelin.
Representando a Liga Serrana dos Autistas, Ana Paula Borges, mãe de uma mulher que possui o transtorno, relatou sua trajetória de batalhas para que sua filha tenha uma vida mais próxima do normal. A partir de suas experiências, ela também presta apoio a centenas de outros pais que passam pelas mesmas dificuldades.
“A luta para assegurar a dignidade e os direitos deles gera uma sobrecarga física e emocional. Muitas mães estão com a saúde mental debilitada, por isso, a união é fundamental, sem o apoio das associações muitas já teriam adoecido também. Somos um grupo que acolhe, que compreende e não julga as mães atípicas. Nós, mães, damos voz a quem não tem condições de se expressar, mas também precisamos de apoio, de suporte emocional e financeiro para que nossos filhos tenham uma vida melhor”, comentou Ana.
É preciso superar a fadiga de acesso e a deficiência dos espaços coletivos
Coordenadora pedagógica da pós-graduação de Neurodiversidade e membro da Comissão Institucional de Acessibilidade da Uniplac, Vivian Fátima de Oliveira disse que ver o Plenário cheio gera muita legitimidade para a causa. Ela reforçou que a Câmara, além de legislar, precisa exercer o poder de fiscalização para verificar se as leis estão sendo cumpridas e se as pessoas com deficiência estão, de fato, tendo acesso, permanência e aprendizagem nos espaços coletivos.
Esse apoio do poder público é necessário, segundo Vivian, para que as pessoas com deficiência não padeçam de um conceito chamado de “fadiga de acesso”, que significa a repetição exaustiva em ter de negociar ações, explicar como as barreiras devem ser retiradas, comprovar mais de uma vez à sua própria condição, entre outras situações semelhantes. “A pessoa com deficiência não deveria precisar se adaptar todos os dias para caber no mundo, a sociedade, sim, precisa modificar o mundo para que todos pertençam a ele, com dignidade”, expôs a educadora.
“Incluir não é somente entrar em um local, é sentir-se pertencente. É a pessoa com deficiência perceber que ela é digna de todos os direitos existentes. Infelizmente, ainda encontramos muitas barreiras de acesso, barreiras atitudinais da sociedade. Precisamos avançar mais sobre esta lacuna, daquilo que está no papel, mas ainda não foi efetivado na prática”, analisou Vivian.
Fotos: Gugu Garcia (Câmara de Lages)
Everton Gregório – Jornalista




